Cartas a um jovem democrata – notas para as novas gerações

jnr.jpgJorge Nascimento Rodrigues, Lisboa, 2 de Agosto de 2007

A questão do papel geracional pode ser importante para quem deseja militar politicamente nos próximos 10 a 20 anos. Que não é o meu caso – mas o da vossa geração.

Tal como foi importante aos meus 16-20 anos nos anos 1960 e 1970 para a juventude esquerdista. Ou como foi importante à geração politicamente activa do pós-guerra dos movimentos democráticos (em que se insere Soares ou Alegre, por exemplo) ou do comunismo sovietista. Para só falar de gente que ainda está viva.

O que me parece é que há dois ciclos fortes que convergem para aquilo que tenho chamado de década de todos os riscos – não sei de 2020 a 2030 ou 2030 em diante.

Gosto do número redondo e simbólico de 2030 – os novos anos 30, em que eu já serei mais do que octogenário, se por cá ainda andar, ou não estiver gágá. Mais científico e sério, Tessaleno Devezas tem estudos sobre o que converge para esse período de 2030.

Os dois ciclos a que me refiro como hipótese (sublinho hipótese para daqui a uns anos poder me «safar» em nova discussão) são:

  • o ciclo geracional dos filhos da World Wide Web, o pessoal que a partir dos 5 anos desde 1995 começou a poder viver sucessivamente emergido nas novas ferramentas e dispositivos de comunicação e cujo modo de pensar é fracturante em relação às gerações pré-web. Foi Don Tapscott que escreveu sobre essa “Net generation” que a partir de 2020 começará a ser trintona. Era a essa geração portadora de uma vivência social radicalmente distinta da minha (que nasci e fui adolescente com o telefone preto colocado numa mesinha de pé alto à entrada de casa ou no escritório, com a máquina de escrever de teclas altas, com a televisão a preto e branco e com apenas 4 a 5 carros existentes na rua onde vivia) e da vossa (que só agora chega aos trinta ou pouco passa deles); Nesse sentido, a vossa geração corresponde a uma geração «entalada» entre os radicais dos anos 1960/1970 que ainda acreditavam em mudar o mundo com grandes ideais e os cibernautas cuja visão do mundo e vivência é reticular e globalizada;
  • o ciclo geracional dos que em 2020 e 2030 poderão aceder ao exercício do poder com 40 a 50 anos, a que me refiro agora, e que é grosso modo a vossa geração. E que poderá ser uma geração ou de políticos de transição “queimados” na voragem de acontecimentos graves que poderão ocorrer ou de políticos que poderão deixar marca, pois vão encontrar pela frente desafios fracturantes na tal década de todos os riscos. Depende do intento estratégico (no sentido que o nosso intelectual não orgânico Pedro Filipe Santos já escreveu desde Paris) que tenham. Provavelmente só agora me dei conta que a vossa geração tem de facto uma enorme responsabilidade quando chegar ao que Sarte chamava de l’age de raison. Mea culpa.

Da geração de políticos actuais em exercício pouco falo. É verdade. Aparentemente já passou à história. Faz a gestão das ocorrências.

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